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Vamos jogar às escondidas (atrás das paywalls)?

Gestão de redes sociais, Notícias | 20 Julho 2017 | Hugo Picado de Almeida

O Facebook anunciou esta semana que vai permitir a existência de paywalls para jornais dentro da sua plataforma, via Instant Articles, bloqueando o acesso dos utilizadores a alguns conteúdos.

Na prática, como anunciou ontem Cambell Brown, Chefe de Parcerias com os Media do Facebook, os leitores terão acesso a dez artigos por mês e por jornal nos Instant Articles. A partir daí, serão redirecionados para o site do jornal, onde serão convidados a pagar uma subscrição para continuarem a aceder ao conteúdo.

Esta jogada do Facebook pretende acalmar as grandes publicações norte-americanas. Lembre-se que o New York Times e a News Corp., dona do Wall Street Journal, lideraram um pedido ao Congresso Norte-Americano, na semana passada, para abrir uma excepção na Lei da Concorrência, o que permitiria ao sector negociar em conjunto com o Facebook e a Google, que os media acusam de possuir um controlo excessivo sobre a publicidade digital.

Este anúncio veio reatar o debate sobre o uso de paywalls pelos jornais online, e é uma excelente desculpa para também nós olharmos para o tema.

Subscritores vs Publicidade

Assumo desde já a minha posição. As paywalls afirmam uma coisa e uma coisa apenas, a incapacidade dos jornais para se adaptarem ao mundo digital. E cada paywall que surja terá apenas um significado, o de anunciar a morte dos jornais enquanto os seus directores se distraem alegremente a contar subscritores. No primeiro ano da sua paywall, o New York Times alcançou perto de 500 mil subscritores, o que o The Guardian estima trazer um retorno de 34,5 milhões de dólares. Número interessante, é certo, mas ao qual é preciso subtrair o desconhecido valor do investimento na enorme promoção do próprio serviço, e olhar à queda de 48,5 milhões nas receitas de publicidade digital do jornal. Mesmo aceitando que as paywalls se tornem comuns e que 10% ou mesmo 20% dos leitores de um jornal online aceitem subscrever para derrubar a paywall, quem é o anunciante que daqui por dez anos pagará para comunicar com essa pequena franja de leitores, quando no Facebook ou em publishers livres podem alcançar a globalidade da população? Começa o futuro a ficar mais claro?

Os jornais entram em campo a perder, e a receita para o fracasso está à vista de todos: quanto mais se fecharem nas suas paywalls, mais restrita será a sua comunidade de leitores, e a queda na publicidade não fará senão agravar-se. Quem serão as empresas a comprar anúncios em sites lidos por um nicho dos anteriores leitores de um jornal, numa época em que crescem cada vez mais publishers nascidos já na era digital e que dominam o seu funcionamento? Os jornais tradicionais têm hoje uma relevância cada vez menor porque falharam em compreender as regras do jogo.

Derrubar muros para erguer paywalls

A grande maioria dos jornais – e em Portugal apetece dizer todos, até porque o Público não é o New York Times e uma infografia interactiva de quatro em quatro anos, quando há eleições, não é suficiente para o conteúdo se tornar deslumbrante – falhou a compreensão do mundo digital, e em particular das redes sociais. O proteccionismo, na internet, não vale de nada quando a distância é a da maratona. Trancar conteúdos é estratégia anacrónica num mundo cada vez mais livre e aberto, e procurar o like a todo o custo – pela inevitável necessidade de compensar a queda de leitores na proposta feita aos anunciantes – emenda pior do que o soneto. Talvez tenham os jornais digitais uma lição a aprender com as editoras de música.

Parem de se queixar das redes, assumam que o mundo mudou, façam melhores trabalhos de investigação e acedam ao que não está à vista de todos – porque o Mundo já não se interessa pelas notícias comezinhas que eram as de um país de aldeias e que se noticiam por si -, usem as novas ferramentas para apostar em conteúdos fortes e originais, reinventem-se. Nunca foi tão fácil distribuir conteúdos por um público em movimento crescente, e nunca os jornais o fizeram tão mal. Acrescentem valor ao vosso trabalho e os leitores saberão recompensar-vos. Até porque é aqui, nas redes, e cada vez mais aqui, que os leitores estão.

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