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O que são os influenciadores virtuais?

Quando se pensa em influencers, é inevitável imaginar fotos na praia, lattes do novo sítio mais trendy da cidade, festas exclusivas de lançamento da nova coleção de uma marca qualquer, viagens… bem, já dá para perceber. Já para não falar na grid impecável e na estética perfeitamente “on point” dos seus perfis no Instagram – totalmente à prova de obsessão compulsiva.

Mas, agora, chegou um novo tipo: inteiramente ficcionais, têm os seus próprios canais e põem conteúdos (por exemplo, aquela selfie básica) que os fazem parecer humanosnão o sendo. No entanto, assemelham-se a qualquer adolescente, na casa dos 20, da era em que estamos a viver, e têm namorados reais, amigos reais, vão a concertos na zona VIP, têm as suas próprias opiniões e interesses. Criados em 3D, são depois colocados em backgrounds reais, o que lhes confere uma impressão de vida própria e de realidade, tornando-os atrativos. De quem estamos a falar? Ora, dos influenciadores virtuais.

As suas fotos são acompanhadas de textos humanizados e defendem diversas causas sociais (dos direitos LGBTQ ao Black Lives Matter), como tentativa dos seus criadores em torná-los mais relacionáveis e humanos, de forma a que haja uma aproximação com a audiência e a que consigam chegar ao estatuto de celebridade. A parte mais impressionante é que, efetivamente, parecem assustadoramente reais – e conseguem enganar tanto os mais distraídos como os mais atentos. Como qualquer outro influenciador digital, promovem marcas e produtos.

Mas este conceito de virtualidade não é novo: os Gorillaz fazem-no desde os anos 90 (se quem estiver a ler isto for demasiado novo para saber, são uma banda britânica que existe através de personagens animadas) e, em 2016, a Louis Vuitton lançou uma campanha usando a imagem de uma personagem do jogo Final Fantasy (a Lightning) como sua modelo.

Neste artigo, vamos dizer-vos quem são e porque é que se estão a tornar nos favoritos da publicidade de moda.

Os quatro fantásticos

Lil Miquela (Miquela Sousa)
É a mais popular e a primeira a ter sido criada.
Tem 19 anos, é Brasileira-Americana e está sediada em Los Angeles, nos EUA. Para além de modelo, também faz música (sim, podes ouvi-la no Spotify) e adora a rapper americana Cardi B. Defende a angaria fundos para o movimento Black Lives Matter.

Neste momento, conta com 1.2 milhões de followers (wow, right?!), e não só promove como também colabora com diversas marcas de moda – Supreme, Gucci, Vetements, Vans, etc. Já apareceu em publicações de renome como a Paper ou a V Magazine, e é também a cara da popular revista/site Highsnobiety, tornando-a numa verdadeira “It Girl” ficcional (se a própria Vogue o diz, quem somos nós para contrariar).

Shudu Gram

É a segunda mais popular e tem o título de “a primeira supermodelo virtual.” De nacionalidade africana, está no Instagram desde Abril de 2017 e conta agora com cerca de 124 mil seguidores. É mais resguardada nos seus comentários/publicações e é tal e qual uma supermodelo real. Foi criada pelo fotografo Cameron-James Wilson, que se inspirou no modelo da Barbie africana. Para si, a Shudu é como uma “peça de arte, criada para celebrar a diversidade e as mulheres de pele escura.”

A sua celebrização deu-se quando, inesperadamente, surgiu a usar um batom da Fenty Beauty, marca da cantora Rihanna. Mas as suas colaborações não ficam por aqui, e sendo o seu maior interesse a moda, deseja apresentar ao mundo novos talentos do design de moda em países economicamente emergentes, mas que não estejam ainda no mapa.

Bermuda is Bae

Com um perfil mais alt-right, mas ainda assim seguida por mais de 82 mil pessoas, advoga pelo Trump e faz comentários políticos. É mais controversa do que as suas colegas virtuais, mas também gosta de publicar selfies com copos da Starbucks – no entanto, tem uma aparência menos realista. A seu ver, a Inteligência Virtual é superior à nossa.

 Ficou conhecida por, em Abril deste ano, provocar uma briga virtual com a Lil Miquela. Entrou na sua conta e apagou todo o conteúdo, publicando fotografias dela mesma com ameaças para que Miquela admitisse ser um avatar, para fazer com que dissesse “a verdade” aos seus seguidores. Este ataque durou 8 horas, sendo que no final acabou por confessar ser mesmo um robot.

Blawko

 É um verdadeiro “campeão da streetwear” e reflete a sua audiência, mimicando um estilo de vida inspirado nos seus rappers de eleição. Diz muitas asneiras, escreve com erros e usa muito jargão.
É amigo e aparece em várias fotos com Lil Miquela, assim como com pessoas reais, vai a desfiles de moda e a concertos.

Os seus conteúdos variam entre memes, jogos e fotografias, nas quais aparece sempre de cara tapada – tal como a Bermuda, parece menos real do que as suas colegas, quase como se fosse saído de um videojogo.
Também advoga por causas políticas e tenta envolver-se nelas (por exemplo, promove uma organização que ajuda crianças emigrantes separadas dos seus pais). Conta com mais de 62 mil seguidores.

Estes foram os primeiros perfis criados e os que mais atenção atraem para si. No entanto, há cada vez mais novos perfis deste tipo: por exemplo, a Noonoouri, adorada por Kanye West, senta-se na fila da frente dos desfiles da Dior e já tem um contrato feito com a marca de beleza KKW (da Kim Kardashian). Criada por Joerg Zuber, conta com 75 mil seguidores e já é adorada por várias marcas, como a Versace.

A importância da briga entre Lil Miquela e Bermuda

A Brud, startup de Los Angeles especializada em AI e na sua aplicação às redes sociais, é quem está por detrás da criação de tanto Miquela Sousa, Bermuda e Blawko. Apoiada por gigantes do capital, arrecadou perto de 6 milhões de dólares dos seus investidores – há uma enorme máquina de capital por detrás desta nova tendência, assim como muito investimento (e lucro).

Foi a própria Brud quem orquestrou este alegado hack, como forma de atrair a atenção dos media, usando o drama como forma de introduzir novas personagens (tal como também é feito pelas próprias Kardashians, por isso, nada de novo aqui). Depois da criação destes avatares influenciadores virtuais, os seus responsáveis temiam que o interesse desaparecesse, já que o primeiro impacto seria sempre a dúvida: é real? Não é? Por outras palavras, criaram uma influência social fabricada.

Com este feudo entre Bermuda e Miquela, a Brud utilizou uma estratégia agressiva para suscitar o interesse e criar expectativas, ao mesmo tempo em que aproveita para revelar a identidade digital delas. Não é incrível, isto?
O objetivo era chamar a atenção para a realidade distorcida que se vive nas redes sociais hoje em dia, pois nunca sabemos o que é ou não é real (por exemplo, os retoques feitos no Photoshop também conferem falsidade à aparência das celebridades de carne e osso).

Mas, então, porque é que as marcas preferem o virtual?

São “proporcionalmente perfeitos” fisicamente, acarinhados por quem os segue, engraçados, sociáveis e proactivos socialmente, tornando-os nos embaixadores perfeitos: a audiência, maioritariamente Millennial e Geração Z (basicamente, pessoas nascidas a partir dos anos 80, até à primeira década deste milénio), é muito motivada pelas aparências, algo que estas personagens conseguem preencher e fabricar perfeitamente (aquilo a que nós, millennials, chamamos de #goals).

Também por serem de confiança, já que não se envolvem em escândalos nem têm comportamentos comprometedores para as marcas, não prejudicando a reputação das mesmas – exemplo perfeito disto é o falso-drama criado para tornar as personagens mais interessantes, mas que ficou apenas entre elas e no mundo virtual, num ambiente controlado. A sua imagem é moldável, controlável e, ao mesmo tempo, permite que as marcas mostrem que estão na vanguarda.

Claro que com as certezas também vêm as dúvidas: não serão, então, demasiado perfeitos? Há quem acredite veemente na sua veracidade, enquanto outros há que odeiam o aspeto falso e vectorizado que têm. É suposto serem inspiradores, o que provoca problemas para a indústria da moda, por si já de moral frágil e com demasiados problemas no que toca à perfeição irreal. Ao serem digitais, falta-lhes humanidade (obrigada, Captain Obvious!), ingrediente essencial para que haja uma conexão com a audiência. É tudo muito digital, não dá para ser recreado na vida real.

Outro traço essencial para as marcas de luxo é a autenticidade, e estes influenciadores virtuais podem constituir um risco a isto. Têm que ser utilizados com muito cuidado, para que não se corra o risco de alienar a audiência pretendida.
Ou seja, estas marcas não podem apenas depender destes influenciadores – descansem, meninas, o vosso trabalho está a salvo. Apenas de pessoas reais vão as marcas poder receber os benefícios de investir, a longo tempo, numa celebridade.

Ainda há um longo caminho a percorrer – e muitas questões por resolver – antes que estes influenciadores virtuais ponham pessoas reais sem emprego. Mas que são interessantes, lá isso são.

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