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Quem diria que o Instagram ajuda a vender livros?

Gestão de redes sociais | 4 Janeiro 2019 | Jesse Viana

A internet está a matar as livrarias independentes. É nisto que se tem vindo a acreditar, com o acesso fácil a livros online, quer seja por download, quer seja por outro meio qualquer. Durante muito tempo foi esta a prerrogativa, e sobretudo aquelas livrarias mais familiares, de bairro, por assim dizer. Mas… olhem que pode não ser bem assim.

 Desde que a Amazon chegou até nós, em 1995, é a quem as companhias e cadeias de livreiros atribuem a culpa por várias insolvências (e não só de livreiros, como de muitos outros negócios). E nem falemos na chegada do Kindle, em 2007, e na subsequente “morte do livro impresso”. O que é facto é que gigantes como a Barnes & Noble e a Borders sofreram, e bem, com a chegada da Amazon.

No entanto, no que diz respeito às livrarias independentes, a tendência está no lado oposto – sim, estas têm vindo a crescer, ao invés de fechar. E sim, a Internet, especificamente as redes sociais e o Instagram, estão a contribuir de forma arrebatadora para a revitalização destes negócios.

Nos Estados Unidos da América, e entre 2009 e 2015, o número de livrarias independentes cresceu 35%. E com elas, cresceu também o número de livros impressos – todos os anos, desde 2013. Aliás, vamos a números: em 2017, as vendas cresceram 10.8% em relação a 2013, e as vendas de e-books decresceram em 10%, de 2016 pra 2017.

A razão pela qual estas livrarias indie estão a prosperar é, maioritariamente, devido à sua ligação com a comunidade, e as redes sociais estão a fazer com que seja mais fácil do que nunca. Até já há uma hashtag para as estatísticas: o #Bookstagram. É sob esta etiqueta que a comunidade bibliófila do Instagram se reúne, partilha e se encontra.

O papel do Instagram

Aquilo que partilhamos nas nossas redes, conta uma história sobre nós, e sobre quem somos. E muitos de nós queremos parecer cultos, inteligentes, e bem letrados (sim, é verdade, não vale a pena te iludires do contrário.).

Desde que esta rede social foi lançada, em 2010, tem vindo a progredir do seu estado inicial de partilha aleatória de fotografias de férias ou de comida, para um local de partilha visual cuidado, extremamente bem curado, e que transmite e expressa quem somos. Documentar as livrarias a que vamos, e os livros que lemos, tem vindo a fazer parte disto – o #Bookstagram já foi usado em mais de 25 milhões de fotografias.

Passamos cada vez mais o nosso tempo online, e nos nossos telefones. Por um lado, não é bom para nós, mas por outro, é bom para o negócio livreiro: ao querermos sair dos nossos ecrãs, voltamo-nos para os livros físicos. Aqui fica um exemplo, dado pela autora do texto original:

Tammy Gordon, consultora de redes sociais em Washington, DC, impôs um objetivo a ela mesma – o de ler 100 livros em 2018, e recorreu ao Instagram para documentar o seu progresso, sob a sua própria etiqueta #100booksin2018. Teve em consideraçãoo o sentido estético, ou seja, de que forma iriam as fotos dos seus livros encaixar na sua identidade visual, ao mesmo tempo em que os incorporou no seu dia-a-dia (exatamente, com as típicas fotos de comida).

Esta vontade em mostrar o que se anda a ler, também teve impacto no que diz respeito ao home décor: prateleiras recheadas de livros, e organizados por côr, foram uma febre no Pinterest. Mais recentemente, uma nova (e estranha) tendência chegou às redes sociais – organizar os livros voltados de fora para dentro. Confusos? É assim:

Todo este “bookstagramming” (porque claro que há um termo para isto…) fez com que houvesse um espaço para amantes de livros nas redes sociais, assim como mais negócio para as pequenas livrarias. A chave, já a dissemos: co-mu-ni-da-des.

Ryan Raffaelli, professor na Harvard School of Business, e que estudou esta nova vida das livrarias independentes, afirma (no artigo original, em entrevista à sua autora) que “estas livrarias são vistas como membros autênticos das comunidades” onde se encontram, já que podem lá estar há décadas ou até mesmo há gerações.

Não só são um local onde as pessoas podem ir conversar com membros da sua comunidade sobre tópicos de interesse mútuo, como também são locais onde se organizam eventos de interesse, e que atraem todo o tipo de pessoas: não só para comprar um livro, como para partilhá-lo nas redes sociais, e ao fazê-lo conectam a audiência das livrarias aos seus cantinhos da Internet. É claro que os donos das livrarias já entenderam isto, e estão a reinventar-se em torno deste fenómeno.

O apelo visual dos livros

 Nesta nova onda de livrarias “Instagramáveis”, é-nos dado o exemplo da Last Bookstore, em Los Angeles. É o sonho de qualquer “instagrammer” – montes de prateleiras, e de outros tipos de instalações com livros, dispostos estrategicamente para o efeito-fotografia. É só seguir a geotag / publicações marcadas da loja e ver.

Segundo a gerente da loja, quando estavam a pensar, e a organizar, estas estruturas, o efeito pretendido era de magia e de surpresa, muito antes de o Instagram ter chegado até nós. Mas, agora que chegou, este labirinto que desenharam tornou-se tão popular que há quem venha só para tirar fotos nele (claro, e há os que vão apenas para isso e que acabam a levar um livro ou dois). Os colaboradores da loja passam imenso tempo a pensar no layout e na disposição dos livros, exatamente para que esta conversão aconteça.

Outro exemplo é a americana Books Are Magic, em atividade desde 2017. Aqui, e para os seus donos, o Instagram é essencial para a sua estratégia, desde o primeiro dia. Aliás… o canal da rede social até veio primeiro do que a loja física: foram construindo o ‘hype’ através de sneak peeks, e foram entusiasmando os seus seguidores, ao mesmo tempo em que criaram burburinho sobre a loja. Não se subestime o poder do Instagram enquanto incubador de marcas: neste caso, ganhou tanto nome que até há quem compre merchandise da loja.

Imagem retirada da própria página.

Ambos estes exemplos não foram criados para o Instagram, mas o Instagram descobriu-as na mesma. E este factor viral foi extremamente benéfico para eles, não só em termos de tráfego de visitantes experientes, como também na conversão desses mesmos visitantes em compradores. Win-win.

Ah, calma, mas nós também temos o nosso próprio exemplo de livraria Instagramável: a centenária Lello e Irmão, no Porto. Com a ajuda da J.K.Rowlling, e do Harry Potter, tornou-se conhecida por todo o mundo e é até considerada uma das mais belas livrarias da Europa.

 Já chega de culpar os millennials de tudo. Neste caso, até fizemos alguma coisa de bom: ao tornar o Instagram parte das nossas vidas, fizemos com que seja algo normal nesta nossa sociedade moderna, e com que seja a forma como nos apresentamos ao mundo. E, no meio disto tudo, criamos um espaço onde os bibliógrafos de todo o mundo possam partilhar o amor pelos livros, contectar com outros bookworms e ainda onde podem apoiar a livraria independente do seu sítio.

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*Este artigo teve como base um outro do site Vox, escrito por Nisha Chittal.

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